Na última segunda (24), a Folha de S. Paulo anunciou que começaria a publicar os quadrinhos da página Psicóloga Direta, que acumulou mais de 200 mil fãs no Facebook em apenas algumas semanas. O problema é que tanto o formato das tiras quanto o seu conteúdo foram retirados de uma série de ilustrações do artista espanhol Molg H. Rapidamente, os quadrinhos passaram de sucesso e case de sucesso em mídias sociais para um dos casos mais polêmicos de plágio dos últimos anos.

Em entrevista ao jornal O Globo no começo da semana, João Mirio Pavan, dono da página Psicóloga Direta, se defendeu, dizendo que tinha “autorização para publicar as tiras do Molg H.”, e que, portanto, as denúncias de crimes autorais contra a sua pessoa e os seus quadrinhos – que agora são desenhados pelo ilustrador Pedro Naine – não eram cabíveis.

Mas na manhã desta quinta (27), Molg foi a público em seu perfil no Facebook e explicou que nunca sequer conversou com o João, e que o brasileiro não tinha autorização para reproduzir, traduzir ou editar suas tiras. Além disso, ele disse que não pretendia ir atrás de compensação por conta do uso indevido do seu trabalho.

“Foi um erro”, disse Pavan ao Kotaku quando o confrontei com a divergência dos fatos. “Na época, quando usava os desenhos de Molg, achei que seria boa a divulgação para ambos, meu conteúdo e o seu desenho. Esse foi meu único erro”, disse.

Como consequência, o João me contou que a Folha já entrou em contato trazendo más notícias para ele. “Falaram apenas que depois de analisar o caso, resolveram interromper a publicação. Já até apagaram [a única tira publicada no jornal]“, disse.

Na noite desta quinta-feira, a Folha de S. Paulo publicou em seu site um comunicado informando que deixaria de publicar a tirinha Psicóloga Direta após ser alertada sobre a “existência de uma personagem anterior, feita pelo cartunista espanhol Molg H., chamada ‘La Psicóloga Honesta’”.

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Além de assumir o seu erro, João acabou revelando informações para se entender não só a sua história, mas como a geração acostumada a pegar e usar qualquer conteúdo da internet se confunde com os velhos direitos à propriedade intelectual.

Abaixo você pode ver na íntegra o bate-papo que tive com João logo antes da Folha entrar em contato com ele para avisar que a sua tira seria cortada do jornal. Falamos sobre todas as polêmicas acerca da sua página, sobre a posição da Folha de S. Paulo quanto às acusações de plágio, e também sobre a possibilidade de ser punido por ter reproduzido o conteúdo do cartunista espanhol sem autorização.

[A entrevista foi levemente alterada para ser lida com mais clareza, mas mantive a estrutura das respostas da forma que recebi.]

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Kotaku: Depois de uma série de críticas e denúncias de que as primeiras publicações da página eram plágios do trabalho do cartunista Molg H., ele finalmente publicou uma nota na página dele confirmando que você nunca pediu autorização pra ele, nem mesmo para traduzir ou editar as tiras. O que você tem a dizer sobre as afirmações do artista?

João Pavan: Quando mandei a primeira mensagem para o Molg, a página ainda se chamava Psicóloga Honesta, e não tinha sequer mil seguidores. Mandei centenas de mensagens, e Molg continuava postando em sua página sem nunca se importar e nem responder.

Isso foi um dos motivos que me fez mudar o desenho, pois como a comunicação era difícil e minha ideia de conteúdo era totalmente diferente, resolvi fazer uma releitura e continuar com meu conteúdo. Nunca traduzi uma linha sequer de Molg, apenas usei seus desenhos no começo e sempre, sempre, sempre lhe dei todos os créditos, tanto na capa da antiga página, quanto no ‘Sobre’ (até hoje está lá). Eu indicava sua página também nas entrevistas.

Mas por que você confirmou que tinha autorização do artista sendo que não tinha?

Sou fã dele. No fim das contas, muitos que me criticam sequer conheciam o artista e até agora não o conhecem, realmente Molg nunca me passou uma autorização para usar seus desenhos no começo (quando os usava).

A verdade é que as pessoas não acompanham a página desde o início, e tomam suas conclusões sem pesquisar. Sempre me inspirei no Molg, os desenhos são sim releituras de Molg. Mas com ideia diferente, conteúdo diferente e em contexto diferente.

Mas isso não explica por que você disse que tinha autorização do Molg sem nunca ter conseguido falar com ele. Então, pergunto mais uma vez, por que você fez isso?

Foi um erro, na época, quando usava os desenhos de Molg, achei que seria bom a divulgação para ambos, meu conteúdo e o seu desenho. Esse foi meu único erro.

De acordo com a Lei 10.693 do Código Penal, a reprodução de conteúdo não autorizado com intenção de lucro (mesmo que indiretamente) pode ser punida com 2 anos de reclusão mais multa. Como você indiretamente usou o trabalho do Molg para angariar fãs e consequentemente ser contratado pela Folha, você pode ser enquadrado nessa lei. O que acha sobre isso?

As críticas sempre foram presente na página. Sobre a lei, é claro que a conheço, e garanto não me enquadrar nela.

À esquerda, a psicóloga de Molg H. À direita, a de Pavan.

À esquerda, a psicóloga de Molg H. À direita, a de Pavan

Apesar do próprio Molg dizer no seu comunicado que não pretende ir atrás de compensação jurídica, você teme ser punido por ter reproduzido o trabalho do artista sem a sua autorização?

Como falei, não temo ser preso pois não me enquadro na lei. Mais fácil seria eu ganhar processos, por calúnias, difamações, além de ameaças (sim, chegou a este ponto).

E por que você acredita que não se enquadra na lei, apesar das provas contra você?

Pessoas que nada tem relação com a história estão me condenando, usando meu conteúdo, meu nome, me ameaçando. Esses sim devem temer a lei. Apesar de que no momento não pretenda fazer nada a respeito.

Como disse, as pessoas não conhecem a história desde o começo. Tenho meus motivos, e claro, meu direito de ampla defesa e contraditório garantido caso fosse a julgamento.

Qual é a sua relação com a Folha?

Até hoje não ganhei nada, só gastei com a página. Só tive prejuízos, enfim.  Mas a Folha não me contratou pelo desenho, sequer pela [personagem] psicóloga. Fui contratado pelo conteúdo das tiras, que para quem não sabe, é criado por mim. Não é traduzido. É um conteúdo dinâmico e que se adapta a qualquer coisa.

Sobre o contrato prefiro não falar, não tenho permissão pra isso. Confio na Folha de S. Paulo, e caso ela desista, faço questão de não receber nada. E sempre serei grato pela oportunidade. [A entrevista foi feita antes de a Folha anunciar a interrupção da publicação do trabalho de João]

Não entendi o que você quer dizer que ela não te contratou para fazer o desenho.

Fui contratado para criar conteúdos de humor. Eu poderia criar qualquer personagem e continuar com meu humor, mas resolvi fazer uma releitura da psicóloga.

Entendi. Tem mais alguma coisa que você gostaria de acrescentar?

Obrigado por falar comigo, poucos foram os que me deram essa oportunidade. Acho que independente do que as pessoas achem, todos têm o direito de dar sua versão, e essa é a minha.

Não sou um mau caráter, não fiz nada de propósito. Foi uma brincadeira que se tornou um “sucesso” e cometi vários erros, isso eu assumo. Mas acho que nada justifica esse ódio de alguns que me querem fora da Folha ou até mesmo essas ameaças que venho recebendo.

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Na página Psicóloga Direta, João publicou um comunicado para os seus fãs: “A Psicóloga Direta deixará de existir após as polêmicas envolvendo acusações de plágio, essa página chega ao fim. Peço desculpas aos fãs da página, mas a situação se tornou insuportável”, diz a imagem.

[Leo Martins e Leandro Meireles também colaboraram para esta matéria.]