O PlayStation 3 foi tecnicamente destravado em janeiro deste ano, depois de diversos rounds em um sistema de “mutirão” que envolveu hackers como George Hotz, KaKaRoToKS e a equipe failoverflow. O sistema que permaneceu invicto diante dos pirateiros por quatro anos sucumbiu, e a Sony vem tentando corrigir o estrago antes que seja tarde demais.

Mas em termos práticos, o que significa esse desbloqueio do PlayStation 3? É o sinal verde definitivo para a pirataria? Uma chance para desenvolvedores independentes aprenderem e criarem alguma coisa com o PS3? Ou tudo será resolvido pela Sony em breve?

O Kotaku Brasil fez perguntas como essas a dois especialistas brasileiros que convivem com “firmwares”, “frameworks”, “jailbreaks” e outros termos técnicos – cada um em sua área. Eles têm posições divergentes e frases curiosas que trazem novos argumentos a essa interminável discussão.

Ney Estrabelli, programador

Ney Estrabelli é programador de games e está familiarizado com as particularidades que cercam a família PlayStation. Participou do começo da cena “homebrew” no PSP desenvolvendo projetos próprios. Hoje ele faz parte de uma produtora independente nacional e continua acompanhando a “cena” – tudo porque, um dia, alguém resolveu quebrar a segurança do portátil. A descoberta, na época, trouxe tanta empolgação, que ele transformou a curiosidade em projeto acadêmico. “Foi aí que achei ótima a ideia de colocar um firmware ‘customizado’ no PSP para poder fazer um jogo simples rodar. Inclusive meu TCC da faculdade foi um ‘framework’ de desenvolvimento de jogos para PSP”, explica.

Para o desenvolvedor, a Sony fez um bom trabalho na segurança do PlayStation 3. A prova disso, segundo Ney, são os mais de quatro anos em que o console se manteve praticamente imune a qualquer investida hacker. “A demora foi porque [o PS3] é um hardware muito complexo. Foi preciso estudar todos os núcleos e passos para saber onde as coisas acontecem”.

A grande virada, diz ele, foi a descoberta de que a checagem de segurança do videogame é feita em vários níveis, trabalho feito em conjunto (ainda que independentemente) por várias comunidades de hackers. O grande “mérito” desses hackers, em termos técnicos, foi ir a fundo no estudo de cada uma dessas camadas de proteção e descobrir onde era a feita a autenticação do software – e daí chegar à descoberta do começo do mês, que é o fato de a Chave Privada que assina os programas que rodam no PlayStation 3 usar uma fórmula que dá sempre o mesmo resultado, explica Ney.

Com isso definido, foram liberadas as ferramentas para que outras pessoas pudessem continuar procurando a chave principal para instalação de pacotes – a Root Key, que foi liberada por George Hotz (foto acima) quatro dias depois. Então o hacker KaKaRoToKS publicou a primeira “custom firmware” do PS3, seguida de uma versão do próprio GeoHot. Mas isso não significava, necessariamente, o início da ilegalidade. “Como eles são antipirataria, as autenticações de nível 2 [responsável pelos jogos] continuaram [funcionando]. Mas existem outros desenvolvedores que começaram a procurar maneiras de rodar ISOs, que na verdade são checadas no nível 2″, explica Ney. “No nível 1 é possível instalar apenas pacotes assinados, logo, emuladores e ‘homebrews’ são possíveis, como é no PSP há muito tempo”.

Essa é a base para que os jogos piratas rodem no console. “Para rodar um jogo no PlayStation 3, por enquanto, somente com o arquivo de inicialização alterado. Esse tipo de destravamento se assemelha ao PSP, porque você instala uma versão alterada do sistema”.

Ney diz acreditar que os processos de debloqueio através dos pendrives da família PSJailbreak e os novos métodos de “custom firmware” são semelhantes, com a diferença que, uma vez removido o USB, as funções de instalação de pacotes desaparecem do console, enquanto no sistema alterado elas são permanentes. No caso do Jailbreak haveria restrição de versão de firmware e a impossibilidade de de jogar online.

Sony no contra-ataque
Do outro lado do campo de batalha, o programador não vê com maus olhos a posição da Sony, que poderia até alterar a chave aleatória de autenticação. “Não vejo tanto problema em alterar essa chave. O problema é que todos os jogos teriam de ser atualizados – mas aí entram os usuários que não costumam jogar na internet, então acho que isso está descartado”. Quanto à possibilidade de a empresa simplesmente desativar remotamente os aparelhos modificados, coisa que seria possível através de uma checagem simples via PlayStation Network, ele diz que não é possível saber se a empresa “tem alguma carta na manga ou está blefando”, apesar de essa “ameaça” ser tecnicamente possível. Isso poderia, porém, acarretar uma série de processos já que, em tese, o dono do videogame pode fazer o que quiser com ele.

Há também a possibilidade de que a Sony lance uma nova versão do hardware para atacar os hackers: “Se eles estiverem blefando quanto ao controle que eles têm sobre o PlayStation 3 atual, um novo modelo com um novo modo de autenticação deve aparecer. Claro que não vai acabar com os antigos, mas uma checagem nova poderá ser feita. Mesmo assim, ainda é complicado para a Sony, porque ela tem uma base muito grande de PS3. Ela vai ter de conviver com isso”.

Mas ninguém deve esperar que, com isso, a empresa decida apostar logo em um sucessor do seu videogame. Ele avalia que, no mínimo, a máquina é poderosa e poucos jogos souberam aproveitar todo o seu potencial. “Se a Sony estiver blefando, um novo videogame deve ser anunciado em breve. Mas claro que isso pode levar um tempo, pois eles vão ter que fazer um novo sistema, mais seguro”.

Ainda assim, no meio de toda essa discussão sobre pirataria, o programador vê a possibilidade de se abrirem as portas para qualquer um participar da cena de “homebrew” para o PlayStation 3, desenvolvendo seus próprios softwares. Ney espera que, em breve, surjam aplicativos como emuladores, navegadores de internet, programas de mensagens instantâneas e até um variante do Teamspeak, suprindo os pedidos constantes dos jogadores para que a Sony inclua grupos de chat por voz independente dos jogos, como acontece na Xbox Live. Ele também espera “jogos simples e bons, feitos pelos próprios usuários”, mas alerta que a “cena” tem dois lados: o dos que desenvolvem coisas úteis e o dos que incentivam a ilegalidade.

E esse avanço todo talvez não estivesse acontecendo, avalia Ney, se a Sony não tivesse removido o suporte à instalação de Linux no PlayStation 3. Através da função OtherOS, retirada em 2009, já era possível instalar diversos desses aplicativos e, se isso não tivesse sido cortado, talvez não tivesse surgido a oportunidade de estudar o hardware tão a fundo para descobrir um caminho alternativo.

Dono de praticamente todas as plataformas atuais, o sócio da Instant Games não acredita que a pirataria seja um mau necessário para o mercado nacional. “Um videogame, para prosperar no Brasil, não precisa de pirataria – precisa de um preço compatível com o que é lá fora, pois realmente é um absurdo o imposto em cima dos jogos. Espero que o governo enxergue o Jogo Justo como uma iniciativa para mudar o que acontece no país”.

Val, ‘pirateiro’ de consoles

Val. É como pede para ser chamado o “pirateiro” que trabalha com assistência técnica desde 1989 e já destravava Super Nintendo e Mega Drive no começo da década de 90. Ele também trabalha com o debloqueio do PlayStation 3, ainda que a procura seja pequena se comparada com outras plataformas.

Val diz que os usuários aparecem na sua loja, situada na rua 25 de Março, em São Paulo, com uma mistura de preconceito, espanto e falta de informação quando o assunto é pirataria no PS3. “As pessoas ainda não acreditam muito que dá para salvar o jogo na HD”, conta ao Kotaku Brasil. Hoje é comum clientes aparecerem na sua loja perguntando se podem destravar um videogame para rodar jogos de outra plataforma, por exemplo.

Algumas pessoas preferem simplesmente não mexer no aparelho, com medo de que haja algum problema futuro como o bloqueio da conexão com a PSN. Mas os clientes em potencial estão se informando mais, e o mercado tende a crescer, avalia Val. Recentemente, a Sony comentou que estava de olho nos piratas, e revelou que tem a capacidade de desabilitar, sem aviso prévio, qualquer PlayStation 3 que tenha seu firmware modificado. Isso é possível porque, toda vez que se conecta à internet, o console faz uma checagem de dados com os servidores da Sony. Nesse caso “desabilitar” significa fazer o console parar de funcionar.

Hoje, o destravamento do PS3 feito através do Jailbreak sai por cerca de R$100, menos que os R$200 ou R$300 que custavam o modelo original do chip e até abaixo dos R$150 da sua versão “caseira”, que o próprio “pirateiro” produzia. Val diz que o destravamento via firmware ainda não decolou porque ainda nao há um suporte garantido para todos os jogos, “problema que deve ser resolvido em breve”.

Por enquanto, as cópias de jogos do PlayStation 3 estão rodando apenas através de imagens baixadas da internet e copiadas para o disco rígido do console, mas há a possibilidade do surgimento de um mercado de Blu-ray pirata, considera Val. A estimativa do técnico é que, com a mídia virgem custando entre R$15 e R$20, os primeiros jogos copiados de PS3 ficariam entre R$50 e R$70. Preço considerado “absurdo”, mas que eventualmente baixaria e faria as vendas subirem. “Isso vai dar um boom gigante”, diz, pensando nessa possibilidade. Com o tempo, o preço desses games poderia cair para a casa dos R$25 ou até menos, dependendo da troca de fornecedores dos discos graváveis.

Há, porém, uma grande desvantagem: o hardware. “O PS3 não vai aguentar porque o leitor não aguenta. Queima muito fácil”, diz Val, lembrando que isso faria “a festa” das assistências técnicas.

O alto preço inicial não inibiria o consumidor brasileiro. E isso por causa do “DNA”, diz Val. Ele cita a vontade inerente que nosso povo tem de querer levar vantagem e o fato de que, além das variadas condições financeiras, há pessoas que compram games piratas por “pura ideologia” e desejo de quebrar as regras. “A gente está muito mal acostumado com o Play 2 e o Xbox 360. Um, dois dias depois do lançamento já tinha o pirata pra comprar” – o que teria cultivado a mentalidade dos games descartáveis e de pouco valor. Quando o domínio era dos originais, lembra, era preciso escolher com muito cuidado para não perder dinheiro.

Segundo Val, isso reflete um fato muito mais grave: que, no Brasil, os consoles precisam da pirataria para prosperar. Esse seria o motivo, por exemplo, pelo qual o Xbox 360 faz mais sucesso que o PlayStation 3 nas lojas nacionais, entre outros fatores. A Live é muito melhor para “tirar um racha no futebol”, diz o técnico, e a chegada do Kinect também colaborou para impulsionar as vendas. Para fazer um videogame vender bastante, “precisa  de pirataria ou de outra coisa muito boa”. Mas esse não parece ser um caminho sem volta: se os jogos de console estivesse na mesma faixa dos de PC, os jogadores prezariam mais pelos títulos oficiais e o mercado formal cresceria, mesmo que com isso a pirataria não acabasse.

E o processo que a Sony está movendo contra os hackers? Não vai mudar em nada a situação, segundo Val. “A sementinha que eles plantaram, outros estão desenvolvendo. É que nem uma guerra: quando alguém morre, puxam o corpo pro lado e colocam outro no lugar”. Para ele a medida também é discutível: “Você comprou o console, tem o direito de fazer o que quiser com ele. É só não sair copiando e vendendo jogo por aí”

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[Foto 1: George Hotz, o "hacker do iPhone e do PlayStation 3" na Maker Faire Austin 2007 - Scott Beale / Laughing Squid / Creative Commons]
[Foto 2: Xcm Cyberbot, "case" transparente para o PlayStation 3 - Reprodução / Technabob]
[Foto 3: Banca de produtos piratas em São Paulo - Leandro M. Pinto / Sampaist / Creative Commons]
[Foto 4: Balões promocionais de Blu-Ray da Sony - mroach / Flickr / Creative Commons]

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