17 de Maio de 2012

Por trás de ovelhas e ‘bizarrices’, Catherine é um jogo adulto de verdade

18 ago, 2011 - 04:00 - por:

29 Comentários

Para muitas pessoas, “jogo adulto” significa sexo; para outras, significa violência. Felizmente, temos Catherine, um puzzle/adventure para maiores que mostra como você pode ir muito além desses clichês sem apelar para os caminhos fáceis.

Nos Estados Unidos, Catherine é um jogo com classificação “M” – recomendado para maiores de 17 anos. No Brasil, o jogo é recomendado para maiores de 16 anos. A classificação não está errada, mas talvez a Atlus devesse aumentar um pouco essa idade mínima quem quer brincar de Vincent Brookes nesse puzzle/adventure adulto para PlayStation 3 e Xbox 360.

Não porque Catherine tenha cenas de nudez ou sexo, como muita gente presumiu. Porque não tem. Nada, nem um peitinho. No máximo, algumas pernas pro ar. Existe violência, sangue, noivas zumbis putrefatas e bebês com línguas saindo das órbitas em cada uma das sete noites de pesadelo do herói. Mas não é por isso que o jogo deveria ser indicado para maiores.

É porque, mais do que ser um jogo de quebra-cabeças com ovelhas, Catherine é um jogo sobre relacionamentos. Sobre (ir)responsabilidade, egoísmo e a difícil (às vezes injusta e sem sentido) escalada até a vida adulta, mesmo que você já tenha passado dos trinta. É um jogo machista porque tem que ser. Ele fala das neuras dos homens, da camaradagem dos homens, do umbiguismo dos homens e de todas as coisas boas e ruins que vêm daí. Para jogar Catherine, você precisa ter levado alguns pés na bunda.

Boa-Noite Cinderela

Vincent mora sozinho, trabalha em um emprego razoável, tem 32 anos e namora Katherine há não-sei-quantos. Ele, pelo menos, não se lembra – mas sabe que são muitos. Os pais dela querem saber o que ela vai fazer da vida. Ele prefere não pensar no assunto e aproveitar a vida. De noite, ele vai beber no único bar decente da cidade com os amigos, que não perdem a chance de dizer que, com o casamento, ele pode dar adeus à liberdade. Os chapas vão embora, uma loira senta ao lado dele, eles bebem e tudo muda porque, antes que ele perceba, está traindo sua companheira. Mas esse não é o único problema de Vincent.

Ele também começa a sonhar que está sendo perseguido por alguma coisa, e que para escapar precisa escalar uma parede de blocos móveis – uma espécide de “Sokoban 3D”. O objetivo, indicado pelo badalar de um sino de igreja, é o topo, e entre um desafio e outro Vincent encontra os outros participantes desse jogo bizarro. Homens que, como ele, de um jeito ou de outro traíram suas mulheres. E, como ele, foram transformados em ovelhas. Essas escaladas são o núcleo do jogo, um obstáculo que você vai encarar durante as cerca de 20 horas que uma campanha completa de Catherine pode durar.

No começo, a ideia é bem simples. Puxar um bloco para formar um degrau, subir para a camada de cima, fazer mais uma escada e assim por diante. Mas o jogo mostra bem rápido que as coisas não são tão fáceis assim. Entram na jogada cubos imóveis, escorregadios, explosivos, com espinhos e vários outros tipos para impedir uma escalada segura. Isso, claro, além das outras ovelhas que querem alcançar a salvação e que vão derrubar sem dó quem não ficar esperto.

Para equilibrar um pouco as coisas, há uma seleção de itens que aparecem no meio do caminho. Além dos travesseiros, que são as vidas extras, há blocos extras, raios que eliminam os inimigos da tela e tônicos que fazem com que Vincent suba dois degraus por vez, em vez de um.

Mas Catherine nem precisaria de tudo isso para ser enlouquecedoramente difícil, a ponto de você quase jogar o controle na parede. Sempre vai surgir um bloco alto demais, um bloco imóvel impedindo que você monte uma escada, ou um que até pode levar direto à saída, mas é escorregadio e acaba levando você para o abismo. Cada movimento precisa ser calculado pensando em pelo menos três ou quatro passos adiante. Mas como é melhor mostrar do que contar, confira um vídeo dos puzzles da sexta noite.

Se você sobreviver a todos aos desafios e chegar a um dos vários finais disponíveis, ainda há um modo com desafios multiplayer e outro chamado “Babel”, no qual você só pode subir. Precisa voltar para mexer outro bloco? Então você perdeu.

Garçom…

Há ainda o lado RPG de Catherine. Ou o “lado de conversa”, já que não há níveis para ganhar, monstros para derrotar ou cidades para visitar. Mas papo tem, e de sobra. Fora do mundo dos pesadelos, você controla Vincent no bar Stray Sheep, onde está sempre em companhia de seus três amigos – Johnny, Toby e Orland – de alguma bebida alcoólica e dos vários visitantes que vêm e vão. Por acaso, as mesmas pessoas que, assim como Vincent, tentam sobreviver noite após noite no mundo dos pesadelos. A cada noite você pode simplesmente beber e ir embora. Mas quanto mais você conversar com as pessoas do bar, mais você ficará sabendo sobre suas vidas e mais chances terá de salvá-las da morte.

Aqui entra em ação o talento da equipe de produção liderada por Katsura Hashino, a mesma dos últimos dois Persona, de fazer mais que uma história. Eles fazem um mundo com o qual você se importa o suficiente para querer salvá-lo. Não porque alguma criatura maligna vai explodir tudo, mas porque as pessoas que vivem nele merecem ser salvas. Há o policial traumatizado pela morte prematura da mulher, o executivo de vendas garanhão, o jornalista amargurado e vários outros tipos que cruzam o seu caminho, tanto no bar quanto nos pesadelos. E vale a pena conversar com eles não só para entender o que lhes aflige, mas para que você também tenha uma outra perspectiva dos seus próprios problemas. O que é melhor do que uma boa conversa quando se está de coração apertado?

É também no Stray Sheep que você interage com Katherine (a namorada) e Catherine (a outra). Entre goles e conversas, uma delas (ou as duas) mandam emails no seu celular, e, como bom sujeito, você precisa responder. É possível escolher frase por frase da resposta, indo desde um “deixa eu beber em paz” até um “boa noite e te amo”. O tom da sua resposta influencia na sua relação com elas, no seu medidor de Karma e, como você pode imaginar, no final do jogo.

Além de ser julgado pelas suas respostas, você também é julgado entre as fases de pesadelo. Ao concluir uma tarefa, você chega em uma plataforma segura – onde as ovelhas sobreviventes descansam, conversam e trocam técnicas importantes para resolver desafios mais complicados -, onde um confessionário-foguete leva até a próxima área. E lá as perguntas não são tão preto-no-branco quanto o medidor de karma, representado por um anjinho e um diabinho, faz parecer. Exemplo: “Se um cara se aproxima da sua namorada, você puxa ela para perto ou deixa ela solta?”.  Ou “Você acha normal cobiçar a mulher de um amigo?”.  Coisas do tipo. Cada resposta é enviada para a PlayStation Network ou Xbox Live, que logo em seguida mostra um gráfico com o que os outros jogadores conectados responderam.

Eu fui um bom namorado e fiquei feliz em saber que a maioria das pessoas online também foi. Mesmo com todas as idiossincrasias japonesas clássicas, como bocões abertos e homens com chifres de ovelha, Catherine ainda é um thriller de mistério excelente com puzzles desesperadoramente divertidos. E é, acima de tudo, um jogo para adultos. Aliás, dias antes de começar a escrever essa crítica, conversei com alguém que tinha jogado a demo. Essa pessoa disse que, se fosse jogar, trairia Katherine porque não foi com a cara dela nos primeiros diálogos. Justo. Ela é, de fato, muito brava. Mas peço que você pense no seguinte: se você está com mais de 30 anos e namora a mesma garota há mais de cinco, uma fase ruim é mesmo motivo para traí-la com outra? Se você não está preparado para responder seriamente a essa pergunta, talvez seja melhor esperar um pouco antes de jogar Catherine.

Catherine foi desenvolvido e distribuído nos Estados Unidos pela Atlus em 26 de julho. No Brasil, o jogo tem lançamento previsto para a segunda quinzena de agosto, via NC Games, por R$ 199,90, recomendado para maiores de 16 anos. Mucioli jogou a versão japonesa para PlayStation 3, de uso próprio. Ele levou pouco mais de 12 horas para terminar a campanha na dificuldade fácil e, acredite ou não, completou os últimos desafios ao lado da namorada. Assim como na vida real, ele foi um bom namorado.

 

29 comentários sobre “Por trás de ovelhas e ‘bizarrices’, Catherine é um jogo adulto de verdade”

  1. Berseroki disse:

    Podia ter um peitinho de leve. :P

  2. Gustavo Zamboni disse:

    eu prefiro a Katherine com "K" , tem menos cara de vagaba

  3. chronos disse:

    esse jogo sai na psn?

    • Mucioli disse:

      Oi, chronos. Não, é só em disco mesmo, tanto para PS3 quanto para 360.

      • chronos disse:

        tenso!
        atéw pagava 100 pelo jogo! mas ainda é lançamento! vou esperar baixar o preço pra comprar! mas vale a pena sim!

      • chronos disse:

        tem troféu? vc tm o jogo?

        • Molécula disse:

          To se intrometendo mas é para dizer q tem troféu sim. e dar a letra de um problema com os mesmos, na versão americana, antes de instalar o jogo e os troféus deixe seu PS3 no idioma Inglês. Caso ele esteja em outro idioma os trofeus ficam em japones. Em outras versões não sei se existe essa parada ai.

  4. GameMassacre.com.br disse:

    Adorei esse jogo, desafiante e uma história muito louca, se vc gosta de anime, e puzzles desafiantes, é prato cheio.

  5. Sevenup disse:

    Revisão justa. Também fui um bom namorado, mesmo com receio de que podia dar merda no final e acabar sozinho.

    " Para jogar Catherine, você precisa ter levado alguns pés na bunda."

    Ótimo review =)

  6. lol disse:

    sem peitinho? D:

  7. Miguel disse:

    A Atlus nunca decepciona, eles não tem medo de arriscar.

  8. Cauê disse:

    Só de jogar alguma coisa do Time Persona já vale a pena.

    Os Puzzles são enlouquecidademente estressantes e difíceis, mais quando você consegue terminar uma tela, é uma alegria sensacional!!!

    Por favor não jogue este game no modo Easy. Jogos da ALTUS não merecem serem jogados no Easy.

    • Mucioli disse:

      Oi Cauê. Foi uma dúvida cruel. Mas o próprio jogo recomenda o Easy para quem nunca jogou. Aliado isso ao fato de eu não ser normalmente bom em puzzles, acabei indo na onda mesmo. Mas ainda assim o negócio é difícil.

  9. Panino Manino disse:

    Vendo o visual desse jogo mal posso esperar pelo próximo Persona com um visual ainda mais refinado nesse estilo e tema maduro.

  10. Horokeu disse:

    Persona 3 FES para adultos.

  11. Boo!? disse:

    Esse jogo é lindo, mas achei a resolução dos mistérios no final extremamente frustrante. Adianto que tem que gostar mto dessas maluquices de anime pra aceitar o enredo…

  12. Pena que sou ridiculamente péssima em puzzles, pq por causa desse review fiquei ainda com mais vontade de jogar devido a parte "RPG".

    Terei que me contentar com imagens e vídeos, xD

    Mas, uma coisa, pelo pouco que eu vi a Catherine parecebeu bem vagaba msm…

  13. Tchiore disse:

    Eu fiquei fascinado por esse jogo, sério.
    Creio que seja pelo fato dele ter uma dinâmica bem divertida e interessante. E diferente. :B

  14. Juno Cecilio disse:

    Ví minha namorada jogando esse jogo, é muito bom, e tem 8 finais diferentes.

  15. @reedie_s disse:

    Quero esse jogo, mas nem achei pra comprar em lugar nenhum, ó

  16. @CIshizu disse:

    Excelente jogo, já tinha feito a seguinte analogia no playfire. Se Sokoban tivesse storyline, e ainda completasse com um simples adventure… esse seria Catherine. Mas acho que o Kotaku podia tirar o video da noite 6-3, é de longe uma das mais dificeis do jogo e esse video tiraria a graça (e a frustração de refazê-la mais de 30 vezes) na primeira vez =p

  17. Marcos disse:

    É um jogão,só que deve ser "quase" impossivel platinar ou fazer 1000 GS,agora que venha logo o novo Megaten ou Persona.
    BTW,quando disse quae impossivel é porque acredito que humanos não vão conseguir fazer 100%.

  18. ArthurOtaku disse:

    Muito legal ver um jogo assim, com alguma maturidade

  19. eduardoprox disse:

    Parece um jogo bem interessante. Só não sei se curto a estética Anime e a idéia, na verdade. Quero dizer, de escolhas morais cotidianas e relacionamentos, eu ja tenho os meus da vida real.

  20. SikkiMind disse:

    Eu peguei a demo e curti muito! Jogo beeeeeeem diferente, de tudo mesmo.

  21. @048448 disse:

    Esse jogo deve ser animal, tô muito animado pra pegar ele, só to esperando uma inevitável queda de preço. Só não gostei do final do texto, dá a entender de mais de uma coisa, mas sem dúvida que trair sempre é errado. Interessante como as escolhas das pessoas em jogos refletem quem realmente são, me lembrou a fase polêmica de MW2, na minha 1a jogatina não tive coragem de disparar o gatilho, mas na 3a fiquei curioso em saber o que aconteceria se eu disparasse o gatilho, como seria a animação das pessoas, talvez um sinal?

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