20 de Maio de 2013
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O que aprendemos com uma partida de dez anos em Civilization II?

Por - 14 jun, 2012 - 04:05

20 Comentários

Para algumas pessoas, Civilization II era aquele jogo de estratégia por turnos lançado em 1996 que mostrava – através de vídeos ridículos – conselheiros dando dicas de como governar a sua civilização desde a era medieval até os tempos modernos. Para outros, como o usuário do Reddit chamado Lycerius, Civ II é o motivo para passar 10 anos num eterno conflito de povos e exércitos. 

Lycerius jogou a mesma partida por 10 anos, e sua civilização chegou ao ano de 3991 EC. Nessa data, o esperado cenário futurista utópico deu lugar a um catastrófico mundo afogado em uma guerra eterna, travada sobre terrenos radioativos demais para produzir qualquer tipo de comida. Na descrição do próprio jogador, na sua prolongada partida de Civ II, “o mundo se transformou em um pesadelo terrível de sofrimento e devastação”.

O tópico já virou uma subseção dentro do Reddit, chamada The Eternal War, dedicada a discutir as consequências de tantos anos de partida. Até mesmo o arquivo com o save do jogo está disponível para download por lá, caso você queira dar um final à essa história toda da maneira que achar melhor (boa sorte para encontrar aquela cópia empoeirada de Civilization II em algum lugar da sua casa).

Nessa partida de 10 anos, as massas de gelo polares derreteram mais de 20 vezes, não existem mais grandes cidades, 90% de toda a população mundial morreu em decorrência de bombas nucleares ou de fome, e tudo o que se constrói são estradas e mais tanques e armas para continuar uma guerra travada há mais de 1700 anos. Os únicos sobreviventes são os Celtas – liderados por Lycerius –, os violentos Vikings, os Americanos e os quase extintos Sioux.

O jogo é balanceado perfeitamente (já que os sobreviventes têm todas as mesmas tecnologias), e cada turno tem dezenas de batalhas nos frontlines ao mesmo tempo que mais e mais soldados são enviados para a guerra. Duas das três grandes nações são teocracias, enquanto os Celtas, controlados pelo jogador, são uma grande ditadura comunista. Para um jogo que supostamente simula os avanços tecnológicos, sociais e culturais da própria humanidade, um futuro sombrio e distópico não é exatamente a melhor das notícias.

Mas eu acho que, analisando a história da produção de Civilization II, vemos que um futuro tão miserável assim só fazia sentido porque tínhamos o pesadelo da Guerra Fria.

Por um mundo melhor

Recordar é viver: a Guerra Fria envolveu as duas maiores potências militares depois da Segunda Guerra Mundial: os Estados Unidos e a União Soviética. Cada país lutava pela hegemonia de seu governo – capitalismo e democracia dos EUA, versus comunismo e ditadura da URSS. A grande arma da Guerra eram as bombas atômicas, que nunca foram usadas durante o período, mas que diversas vezes passaram perto de levar o mundo inteiro a um apocalipse nuclear. A paranoia era gigantesca, e o medo de que a humanidade pudesse acabar da noite para o dia deixou o mundo sem sono durante quase meio século.

Civilization II foi produzido em 1996, logo após o final da Guerra Fria, com a queda da União Soviética. Olhando para a partida interminável de Lycerius, é difícil não notar a influência dessa paranoia de guerra no desenvolvimento do jogo. Segundo o usuário, a sua nação se tornou uma ditadura comunista por questão de sobrevivência dentro da guerra, uma vez que os Vikings, teocráticos, atacavam de surpresa com bombas nucleares a cada rodada – mesmo após acordos de paz e intervenções da ONU.

Da mesma forma, durante a Guerra Fria, três grandes acordos de paz foram assinados e, entre eles, duas grandes guerras foram travadas, com milhões de mortos e muito desespero de que, como previsto, o mundo acabasse subitamente em um grande cogumelo nuclear. Era um ciclo vicioso, tal qual no jogo: um novo acordo de paz, uma nova ameaça, uma nova batalha acontecia, o medo do apocalipse surgia novamente – voltavam, então, os acordos de paz.

Por sorte e algumas decisões sábias, a Guerra Fria do mundo real acabou. Os EUA começam a se tornar uma sombra patética do que já foram, a URSS foi dividida entre dezenas de países, que estão aos poucos recuperando sua economia. Os campos continuam produzindo comida e sofremos menos com o lixo nuclear do que era previsto. O medo acabou.

Já em Civilization II, esse conceito de mundo ficou congelado. E depois de quase 20 anos de seu lançamento, vemos um retrato incrível de como era o mundo e como, consequentemente, esse momento histórico marcou para sempre a forma como a humanidade evolui dentro do jogo.

Um mundo de sofrimento e devastação é uma descrição de um universo que decidimos, como civilização, não perpetuar. Os detalhes do game design de Civilization II estão aí para validar essa escolha. E servem também para lembrar, mais uma vez, que os games podem nos fazer pensar em assuntos muito reais. É realmente incrível contemplar que, por muito pouco, não escolhemos um futuro que fica lindo na ficção (Fallout, Metro 2033, Call of Duty e afins), mas pode ser um inferno de verdade na vida real.

>> Medo, guerra nuclear e um futuro distópico em 10 anos de Civilization II [Reddit, em inglês]



20 respostas para “O que aprendemos com uma partida de dez anos em Civilization II?”

  1. Buffalus disse:

    Conclusões um tanto óbvias para necessitarem de 10 anos de jogo, mas tudo bem… Tá valendo o esforço do Zé aí, então.

  2. marco_b disse:

    Que qualquer coisa em excesso faz mal.

    • Lulavenera disse:

      E eu que pensava que minhas partidas de mais de 30 horas em Age of Empires 1 há 15 anos atrás não eram nada sadias…

  3. gstak disse:

    Por isso que eu adoro Civ. Lembro de ficar jogando de noite e repentinamente o quarto ficar mais claro. Aí eu via um belo nascer do Sol. Obrigado Sid Meier por me proporcionar alvoradas tão bonitas ahuahuahuahuahua

  4. Marcos Krock disse:

    Excelente matéria Falcão, excelente.

  5. Hermengildo disse:

    Esse foi um dos jogos que me marcou bem, de ter jogado muito, e que quando fui copiar a primeira vez, peguei com um amigo em uns 16 disquetes de 1,4. Mas a trabalheira de copiar e desARJear (só os velhos entenderão) rendeu e valeu a pena, gostava muito desse jogo, só que chegava um ponto no jogo que ficava chato bem por esses motivos, não tinha mais aquele negócio da conquista, de aprender as habilidades e conhecimentos. Após o desenvolvimento espacial, e a bomba atomica, ficava bem isso que o cara escreveu.

    E tenha saco pra ficar jogando 10 anos o mesmo save game…..affff

  6. Hominho disse:

    Matéria top…. parabéns……

  7. marcoskalil26 disse:

    O esforço de relacionar a Guerra Fria com o desenvolvimento do jogo foi válido, mas a análise geopolítico-histórica do Kotaku foi ingênua e superficial.

  8. DanielBruno disse:

    Muito bom. Acho incrível como alguém conseguiu ir tão longe num jogo.
    Me lembra a lendária partida de D&D que dizem que os criadores jogam desde a criação.


    Um errinho: URSS tá escrito USSR no 10º parágrafo.

  9. MS555 disse:

    "…desARJear (só os velhos entenderão)…". Foi uma época divertida.

  10. kbk00 disse:

    Parabéns pela matéria. Excelente.

    ps: fiquei com vergonha, 10 anos jogando o mesmo jogo?? E eu achando que jogando Demons Souls por um ano foi um recorde.

  11. Emerson29 disse:

    1 ano de demons soul joguei 2 meses ja cansei dele , mas 10 anos é muita coisa mas se o cara gosta ta bom.

  12. Lulavenera disse:

    Nada a ver com o tópico, mas quem tiver a fim de saber algo mais sobre a Guerra Fria de uma forma fácil e interessante baixe o documentário The Atomic Café… recomendo fortemente!

  13. Yuri Vidal disse:

    Se lerem os relatos do Lycarius no Reddit, ele falou que joga a 10 anos, não 10 anos TODOS OS DIAS ou toda hora. Ele volta-e-meia retorna ao jogo.

  14. Edu disse:

    O resultado se assemelha muito mais a 1984 do que Guerra Fria.

  15. Chong Li disse:

    Otima materia, bem que poderia ser um norte para as proximas!!!
    Parabens Pedro Falcon!

  16. Castle_Bravo disse:

    Fossem quatro democracias restantes, tanto no jogo quanto no mundo real, a probabilidade de conflito bélico seria mínima, além do mais o jogo não calcula o efeito que as armas nucleares podem causar até mesmo entre aliados, é algo que ninguém quer usar e no jogo é banalizado por motivos óbvios, podemos até dizer que a Guerra Fria não "esquentou" entre a EUA e URSS por causa das armas nucleares.

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