Por tudo o que já foi dito sobre Minecraft nos últimos anos, seria fácil acreditar que ele é um dos maiores jogos já criados. Uma experiência libertadora que está mostrando às desenvolvedoras de jogos AAA o que o público realmente quer, e revolucionando a forma como os jogos são desenvolvidos e vendidos.

Em alguns aspectos, ele é exatamente isso. Em outros? Bem…

Minecraft é um monte de coisas, mas não é apenas um jogo – fosse na fase beta ou mesmo agora, que ele foi finalmente… lançado. Ele sempre foi mais do que um programa interativo em que você clica repetidas vezes para executar ações. Minecraft é sobre incentivar a comunidade, fazer as pessoas falarem, compartilharem e cooperarem entre si.

Minecraft é a comunidade formada em torno do jogo, talvez mais do que o próprio jogo. É sobre identificar-se como um fã de Minecraft. Existem milhões de jogadores que vão sendo abandonados pelas produtoras de games e sua mania de “emburrecer” seus produtos, nivelando-os por baixo. Muitos desses jogadores frustrados são como náufragos que enxergam em Minecraft uma tábua salvadora, flutuando. E eles agarram para não soltar tão cedo.

Quantos jogos ou séries têm suas próprias convenções de fãs? Call of Duty, a maior franquia de games do mundo, tem uma. E Minecraft tem uma. E é isso. [A Blizzcon até poderia ser considerada, mas ela trata de vários jogos da Blizzard, não de um só].

Mas quantos jogos fizeram um fã telefonar na minha casa para reclamar que eu tinha usado um vídeo do YouTube que não mostrava o jogo em sua melhor forma? Só Minecraft.

Tudo isso complica a tarefa de separar o jogo da cultura que ele formou. Principalmente porque o jogo ainda é tão bruto e tão mal apresentado, que exige que você seja parte de ambos.

Se eu jogasse Minecraft sozinho, sem amigos e sem ajuda, eu iria odiar. Por diversos motivos. Primeiro, porque ele é quase hostil para os novos jogadores. Não existem tutoriais, nenhuma mensagem de ajuda, nenhuma dica, nada. Você é arremessado em um dos maiores e mais imprevisíveis mundos já criados nos games, sem absolutamente nenhuma assistência. Por onde eu começo? O que eu faço? O que eu posso fazer? Eu não tenho ideia, porque o jogo não me diz.

Eu também não gosto da “jogabilidade”. Entendo que você precisa fazer concessões tanto para manter o jogo flexível quanto para garantir o seu estilo simplista, mas o combate e o movimento em Minecraft são “escorregadios” e imprecisos demais. Matar os bichos é um saco. Pular é um saco. Nadar, algo que as pessoas no mundo real fazem para se divertir, é particularmente trabalhoso (tudo bem, nadar quase nunca é divertido nos games).

E eu detesto a nova estrutura de “jogo” que foi acrescentada no lançamento final. Eu sei que é opcional, mas, em parte porque o jogo está muito mais caro agora do que costumava ser, isso tem que ser levado em conta. O que uma vez foi um jogo sobre pouco mais do que vagar por aí, explorar e construir – ou vagar por aí com outras pessoas construindo coisas -, nas atualizações mais recentes tem se transformado em um modelo mais tradicional de jogo, incluindo um “chefe” final.

E para chegar a esse chefe você precisa trabalhar como louco, quebrando pedras por dias – algo normalmente reservado para aqueles que cometeram crimes. É algo incompreensível, e a recompensa é insignificante. Vai totalmente contra o mundo de Minecraft construído em sua fase inicial, mais “aberta”, e é algo que poderia ter ficado de fora do jogo final.

Se o negócio fosse baixar o jogo e jogar sozinho, Minecraft seria uma absurda perda de tempo. Um jogo bruto que pouco fez senão cuspir na sua cara e rir porque você não entendeu sua linguagem secreta – enquanto você é obrigado a fazer trabalhos manuais virtuais. Que bom, então, que Minecraft envolve muito mais do que isso.

A comunidade é metade do jogo e toda a diversão. E por comunidade, eu não digo apenas as pessoas com quem você joga, mas aquelas que têm dedicado seu tempo para preencher as lacunas deixadas pelos criadores do jogo em termos de documentação, dicas e conselhos.

A comunidade Minecraft é como uma família, em diversos aspectos. Você não pode escolher sua família, você está preso a eles, e tem que se virar e amá-los pelo que são. Minecraft é isso, porque obriga a pessoa a se envolver com a comunidade, seja para entrar em multiplayer (que geralmente envolve obedecer as regras de outras pessoas) ou apenas para tirar proveito dos guias, dicas e conselhos que você tem que caçar por conta própria.

Claro, existem loucos. E idiotas. Assim como nas famílias reais. Mas também existem, e isso é raro na internet, muitas pessoas com um desejo genuíno de ajudar os recém-chegados, dizendo a eles como o jogo pode realmente ser aproveitado, ou ajudando-os a construir coisas (em vez de apenas destruí-las), ou simplesmente jogando juntos. É na experimentação que Minecraft brilha e alcança os limites da imaginação.

Quando você entra em um servidor com vários jogadores pela primeira vez e vê o que as pessoas têm construído, o que elas têm feito com próprias as mãos virtuais e terra, pedra e vidro, você fica sem palavras. Há um “espírito empreendedor” e de trabalho em equipe que você simplesmente não encontra em outros jogos. Uma vez online, você abandona toda aquela desconfiança que tinha sobre o jogo nas sessões offline. Qual o problema se “a movimentação é ruim”, quando na verdade você está ajudando alguns caras a construir uma réplica da Estrela da Morte enquanto veste uma fantasia de Tartarugas Ninja?

Esse grandioso senso de colaboração também marca presença na primeira vez em que você corre até o Google para descobrir como fabricar certo item ou onde encontrar alguma coisa. Algo que você vai ter que descobrir, geralmente, logo nos primeiros cinco minutos de jogo. A maneira como a wiki de Minecraft (favorite AGORA) e milhares de tutoriais no YouTube são recheados com conselhos amigáveis ​​sobre como fazer qualquer coisa no jogo transforma o que seriam horas de tempo perdido em horas de tempo bem aproveitado nessas “salas de aula” virtuais.

E isso deveria ser muito, muito chato. Fale de qualquer outro jogo que exija dedicação extra-curricular, e eu vou dizer que esse é um jogo que não vale a pena ser jogado. Mas existe algo em Minecraft que nos desarma e faz tudo isso parecer legal. Normalmente, procurar uma wiki ou um FAQ acaba sendo um spoiler sobre o jogo, na melhor das hipóteses, e uma mancha no seu orgulho na pior delas. Mas Minecraft, intencionalmente ou não, parece ter sido concebido para contornar essa situação.

Esse apoio online é uma ponte de acesso ao jogo. E isso é crucial para a diversão. Quando você entra no jogo, você percebe que pode correr, socar árvores e coletar madeira mas, quando escurece, você inevitavelmente morre. Muito. Mas você percebe, pela variedade do terreno, pelos “slots” vazios e pelo tamanho de seu inventário que há muito mais no jogo. Então você vai consultar um guia para iniciantes, e de repente percebe que o que parecia um simulador de sobrevivência pouco emocionante é, na verdade, um simulador de vida e construção de mundos incrivelmente complexo, em que você pode esculpir o próprio tecido do planeta como quiser. Descobrir isso não é uma desonra, nem um spoiler, porque não há história para estragar, e a estrutura do jogo está lá para ser alterada, mesmo. É apenas parte do processo, porque não importa se a internet está dizendo a você como fazer ferro. O que importa é o que você vai fazer com esse ferro.

E quando você perceber isso e usar esses guias como ferramentas para construir mais ferramentas, tudo muda. O mundo de Minecraft deixa de ser uma massa de terra em blocos que podem ser socados e se transforma no maior conjunto de Lego que você já teve em sua vida. LEGO, se você não está lembrado, não é perfeito também. As peças somem, você fica mais frustrado do que realizado e, às vezes, o que você constrói acaba ficando assustadoramente irreal. Mas ele está aí até hoje.

Mais do que isso, ele é um dos brinquedos de maior sucesso de todos os tempos, e foi por razões semelhantes às de Lego que Minecraft se tornou tão popular. Como o brinquedo, o jogo também tem seus problemas e limitações, mas a flexibilidade e a escala do que ele possibilita significam que você não precisa se importar com isso. Você gosta da promessa de que é possível tanto quanto do resultado de seu trabalho.

Muitos jogos não conseguiriam escapar ilesos com o tipo de contradição que Minecraft apresenta. Feio e mal acabado por um lado, mas proporcionando sentimentos incríveis do outro. Não há muitos jogos como Minecraft. Ele traz algo que é muito importante para muita gente, tão importante que eles estão dispostos a ignorar os defeitos e particularidades do jogo. E esse algo é permitir e premiar a liberdade, a expressão, a criatividade. Minecraft permite a você realmente jogar um jogo e fazer o que quiser com ele, em vez de apenas pressionar os botões para acompanhar a história criada por outras pessoas.

Essa liberdade é importante para mim. Minecraft me frusta com sua dificuldade, inacessibilidade e crueldade ocasional, mas eu continuo jogando, porque as partidas que que estou jogando no meu pequeno mundo são minhas e só minhas, e as partidas que eu jogo com outras pessoas podem ser minhas, delas ou até mesmo completamente nossas.

No mundo dos games em 2011, isso é uma coisa rara o bastante para prosperar e triunfar, mesmo com tantos defeitos.

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Minecraft foi oficialmente lançado em 18 de novembro para PC e Mac, depois de uma longa fase beta em que vendeu mais de 4 milhões de cópias. Atualmente, ele é vendido via download em minecraft.net por 20 euros.