E parece que a falta de compreensão a respeito do que está realmente acontecendo devido ao final de Mass Effect 3 é grande. Eu queria escrever algo mais parcial (juro!), mas meu bom senso não permitiu. Então, vou tentar me ater aos fatos por aqui [O TEXTO CONTÉM SPOILERS].

Ninguém está julgando a qualidade do jogo, pelo contrário, pois Mass Effect 3 é, sem dúvida, algo de incrível de se aproveitar. Até os últimos minutos. Os fatídicos e finais minutos. Eu lembro, assim como muitos de vocês, das entrevistas de Casey Hudson, produtor da BioWare, falando sobre a grandiosidade do último jogo da trilogia de Shepard. Assim como lembro de ele garantir que Mass Effect não acabaria entre escolhas “A, B ou C”. Bem, antes ele tivesse falado “A ou B”, porque definitivamente só existem três opções e, vou te dizer, bem parecidas por sinal.

E, lamento informar, não tem como falar do final de Mass Effect sem explicar um pouco do que acontece e um pouco da “incrível” motivação dos tão temidos Reapers. Que é, basicamente, aparecer a cada 50 bilhões de anos e matar todas as raças desenvolvidas para que elas não criem criaturas sintéticas que se voltem contra elas e as exterminem. E é isso. SÓ isso. Chocante, não? Quem se lembra daquelas fortes palavras do Sovereign? Ele só queria o bem da galáxia e a continuação da vida orgânica, poxa!

Enfim, se esse é a motivação deles para matar civilizações atrás de civilizações, fazer o quê? Acontece que Shepard, nossa/nosso querido Shepard, foi capaz de – no melhor dos mundos – fazer aquela raça lá de sintéticos e aquela outra, aprisionada para “sempre” em suas roupas espaciais devido ao seu frágil organismo, fazerem as pazes. E não só isso, os tal Geth até iam ajudar a reconstruir Rannoch. Além disso, vale lembrar que tivemos Legion ao nosso lado e ele deixou bem claro o total desinteresse que sua raça tinha em entrar em conflito com os orgânicos. E EDI começou a compreender um pouco mais os orgânicos, humanos, pelo menos. Algo meio Six, de Battlestar Galactica.

Basicamente, Shepard resolveu os conflitos com os sintéticos de sua geração, mas, de qualquer forma… Por que diabos os Reapers não criaram uma maneira mais pacífica de resolver isso, sendo oh-tão-poderosos, por que não auxiliar na busca da paz?

Mas vamos abstrair isso e nos focar no exato final da trilogia e em suas TRÊS opções como jogador: Destruir toda a vida sintética; Unir a vida sintética e orgânica através da “magia espacial”; ou Controlar os Reapers. Agora, vamos às semelhanças? Em TODOS os finais, os mass relays são destruídos e a Normandy cai em algum planeta deserto. As cenas são iguais, só muda a cor da explosão dos mass relays e quem sai da Normandy no planeta. Aí, sobem os créditos e você descobre que era um vovôzinho contando para o netinho a história de Shepard.

Se você não acha esse desleixo revoltante, que bom para você! Juro que queria estar satisfeita com o final de um dos meus jogos favoritos, mas, sinceramente, você não tem o direito de dizer para os outros não reclamarem. Já diria o velho ditado, “opinião é que nem bundinha, cada um tem a sua”. E, até agora, mais de 52 mil pessoas não estão NADA satisfeitas com o que a BioWare fez.

Agora, o que é preciso compreender, e que muita gente não está nem tentando, é que essas 50 mil pessoas são fãs da empresa e da franquia e, se pedem por um final melhor, é porque querem algo digno dessa trilogia incrível.

A empresa nos entregou um produto incompleto com um final medíocre que não explica o que acontece com a galáxia, que destrói toda tecnologia espacial vigente e ainda deixa a maior parte das raças isoladas no sistema solar sem ter como voltar para casa. Meu deus, é pedir demais um pouquinho mais de esclarecimento? Isso nos torna “fanboys” mimados? Ninguém está exigindo um final feliz, não, muitos estavam preparados para um sacrifício de Shepard. Mas um que fizesse sentido.

E não venham com essa de que que o final de Lost ou não-sei-o-quê é uma droga e ninguém pediu para mudar. Desculpe se nós – fãs de Mass Effect e da BioWare – nos preocupamos mais com nossa querida série e jogo que os outros fãs. Como esse movimento pode ser encarado como algo ruim, se é a organização da “minoria vocal” para que um jogo se torne melhor ainda? E, sinceramente, a BioWare deveria estar satisfeita de ter fãs que gostem tanto assim do que ela produz, para chegarem a esse ponto.

Bem, como o jogo teve seu último lançamento geográfico por agora, os números tendem a aumentar, os japoneses estão furiosos, acreditem. Até porque cada vez mais pessoas terminam e se deparam com esses três finais. A quantidade de gente que surge entristecida pelo que viu chega a ser surpreendente. E, admito, no começo era mais “reclamações e desespero e raivinha”. Não mais.

O site “oficial” da campanha estreou. A página no Facebook foi curtida por mais de 38 mil pessoas. As doações para o Child Play chegaram, em seu terceiro dia, a mais de 51 mil dólares. Detalhe é que, pelo que foi observado, houve duas doações de mil dólares e uma de 10 mil (admito que também fiquei chocada). E, ah, as famigeradas doações, né? Enquanto alguns dizem que é para chamar atenção, eu, como membro do movimento, interpreto como uma maneira de direcionar a raiva para algo produtivo e que está auxiliando diversas crianças.

Porque eu estou com raiva, muita raiva. Mas eu não estou xingando no Twitter a empresa, estou tentando, como muitos outros, dar o final que minha Shepard merece. Se ela merece esse, que seja, só me explique o que aconteceu com ela, com seus amigos e com a galáxia, porque ela deu o sangue e a vida, mais de uma vez, por eles.

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Amandha Katsu é caótica e Neutra. RPGista. Otaku. Jogadora nas horas vagas . Leitora Compulsiva. Grey Jedi. Dobradora de Fogo. Cylon. Ah, e assistente de Mídia da Ogilvy.

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