Apague da sua cabeça a ideia de ver em Detona Ralph uma “redenção dos games” no cinema. Ele não é a obra-prima de referências e boas histórias que, por algum motivo, nós pensamos que seria. A animação da Disney é só um conto de fadas com um skin de videogames – um skin bem superficial, com referências diluídas que não se encaixam e promessas que não decolam. Como animação, Detona Ralph é bobinho; como homenagem aos games, vira enganação.

A historinha de heróis e vilões pode até divertir a molecada, mas não tem a inspiração de um Toy Story (ao qual vem sendo comparado por muita gente). As piadas são óbvias, os personagens são fracos, e pioram com a dublagem pt-BR, em alguns casos. A história se desvirtua para seguir a tradição de final feliz.

Talvez o problema tenha sido o licenciamento de personagens, que limitou o que a Disney poderia fazer no filme, ou quem ela poderia usar? Não sei, mas o fato é que ela usou mal.

O apelo a personagens famosos dos games não convence, soa inocente e amador. Um marine fica travado andando contra a parede, como se estivesse “bugado”, Sonic é atropelado e perde suas argolinhas de ouro. [E falando assim até parece legal]. Ryu e Ken encerram o expediente de hadoukens para tomar uns gorós no “boteco do Tapper“, no que talvez seja o maior exemplo de boa ideia que acaba em nada. Um personagem digita o Konami Code, outro acha uma exclamação de Metal Gear Solid na caixa de achados e perdidos, outro conversa com Q*bert, um personagem jurássico dos arcades que deve estar no penúltimo lugar da “lista de personagens legais dos arcades que poderiam emocionar alguém”.

Não é assim que funciona, Disney. Principalmente se você botou gente como Bison e Sonic nos pôsteres - personagens que, somados, devem aparecer em aproximadamente 10 segundos de filme. A promissora reunião de vilões que dá início a tudo é um teaser do que poderia acontecer: grandes personagens, um conflito, potencial imenso. Mas ela perde lugar para uma corrida de Mario Kart no “Reino dos Doces” – e então as referências a games, que já não eram grande coisa, dão lugar a piadinhas com chocolate e bombas de Mentos com Coca.

Como um Skyrim, que fica mais divertido com bugs inexplicáveis, Detona Ralph quase volta a ficar interessante com uma falha: a pequena Vanellope, feita à imagem (e voz) de Sarah Silverman no filme original, dublada por Mari Moon na versão brasileira. A “outsider” do Reino dá uma graça ao filme, deixa as coisas mais interessantes, mas ao mesmo tempo desvia o que era “a busca por identidade do vilão” em uma “história de injustiça num reino encantado da princesa”.

Carentes que somos de uma grande representação gamer nos cinemas (tanto que relevamos muitos problemas do Indie Game: The Movie em nome da catarse coletiva), fica fácil celebrar Detona Ralph só porque “ele botou um monte de referências engraçadinhas” para o mundo todo ver. Ou talvez seja a esperança de ver a nossa linguagem específica sendo reconhecida pelo grande público? Mas não foi dessa vez. Os games são muito mais ricos (e engraçados, criativos, surpreendentes…) do que essa fajuta homenagem em Ralph. Em todo caso, fique até os créditos finais – rolam umas brincadeirinhas mais inspiradoras que o resto do filme.

DETONA RALPH

Original: Wreck It Ralph
Direção: Rich Moore (Futurama, Simpsons)
Horários em São Paulo: Guia da Folha 
Mais infos: IMDb, site oficial